8.12.09
7.12.09
De dentro de mim
Eu vou fingir que isso aqui não é um blog e que eu estou conversando com alguém que entenda. Não que isso exista. Pode ser até Deus, se ele for capaz de compreender ou coisa assim.
Eu não sei se é coisa minha, não sei mesmo, mas eu sinto a cada dia mais forte uma certeza de que nada está sob o meu controle. Você sente?
Eu acordo e vejo que tudo o que eu quero/gosto/repudio depende de outras mãos. Sabe? O que eu faço e o que eu digo são coisas monitoradas, são aprovadas ou reprovadas, são conduzidas.
Só que eu não tenho conseguido lidar com isso. Eu tenho colocado o som bem alto de novo, dentro dos tímpanos, para não ouvir a minha cabeça tentanto avisar que tudo está errado. E eu nem sei quando isso voltou a acontecer. Acho que dormindo eu esqueci de me ouvir, mas agora grita novamente.
Muita gente diz que quer algo, e procura por isso, mas não sabe o que é. Só que eu tenho certeza que na minha vida isso faz bem mais sentido. Porque eu me sinto mal com isso desde os 13 anos. Todos esses anos. Às vezes parece que alguém me dá trégua, sabe. Eu começo a ficar mais solta, menos preocupada. Mas volta, sempre volta, cara. E isso não é justo! Hoje mesmo eu tive muita fome, eu tive ódio, eu tive dor de cabeça, eu tive vontade de abandonar tudo. O meu coração aqui dentro parece que está sendo segurado por duas mãos, coisa ruim de sentir.
E não é drama, pior de tudo.
Eu não sei explicar muito certo o que ocorre, eu só sei que eu não me sinto bem, eu me sinto sozinha no meio de todos... Igual eu estava há um tempo atrás. Eu me sinto perdida, eu me sinto dependente da palavra alheia, eu me sinto e sou muito fraca.
Eu também não sei se isso é doença, se é crônico, se é bobeira minha. Só sei que a culpa é das pessoas. Todas elas.
6.12.09
2.12.09
O Grito
Vivia andando pra lá e pra cá com uma pastinha de couro embaixo dos braços, não havia papel dentro - ninguém sabia disso. Todo dia uma gravatinha azul e a camisa branca já amarelada pelo tempo. "Um homem distinto", diziam.
Zé Firmino morava na Rua Pombos, cujo nome só lhe trazia desgosto. De seu apartamento mofado, via os carros lá embaixo enfileirados e buzinantes, agradecia por só ter bicicleta. Bebia o café sempre vendo as pessoas do prédio da frente acordarem e tomarem o desjejum antes de ir ao trabalho. Sentia-se relaxado. Zé Firmino não trabalhava. Em sua pasta havia sempre uma caneta e só. Saía por aí desenhando em qualquer canto que achava, fosse muro ou fosse pedra,
Numa quinta-feira alaranjada acordou estranho. Deve ser porque o telefone do vizinho tocou. Zé Firmino nunca teve vizinho no andar de cima cima. Zé Firmino nunca falara ao telefone e se lembrara disso. Acho mesmo é que Zé Firmino não falava, mas ele não conseguia fazer o teste... Bem podia ser sua mente, não os ouvidos.
Foi quando enumerou que não conversava desde o nascimento, mas não lembrava ao certo se havia nascido. Com medo de ser invenção do tempo, desceu as escadas correndo em busca de um telefone público. Sabemos como fazer uma ligação, Zé Firmino não sabia.
Tirou do gancho e esperou que alguém dissesse algo. Sem sucesso. O zunido lhe foi tão estranho que soltou o aparelho no ar, ficando o negócio suspenso pelo cabo. Tentou novamente em vários orelhões pelo caminho. Nada de êxito.
Foi ficando desesperado. "Não sou gente", pensava. Será que era? Zé Firmino viu uma garotinha desenhando com giz na calçada quando realizou que estava sem a distinta pastinha embaixo do braço. Foi subindo um ar quente às ventas, um fervilhão pelo estômago, uma coisa ruim. Saiu correndo rumo ao prédio novamente. "Uma caneta", pensava.
Subiu as escadas tropeçando, arfante, caiu no último degrau. Levantou-se instantaneamente e foi procurar a pasta. Revirou a casa. Duas vezes. Nem sinal da pastinha. O jeito ruim foi crescendo-lhe de novo. Sem palavras, sem caneta, sem pastinha, sem telefone. Mordeu os lábios arrancando sangue vivo, cerrou os punhos e lançou-os contra a parede. "Que diabos é isso?", pensava. Era a raiva que lhe fervia, um mal estar, calor na testa.
Chegou ao pé da janela ainda vertiginoso. Reclinando o corpo todo para a janela, sentiu um ar seco e cinzento entrando forçosamente pelas narinas. Palavras, caneta, pastinha, telefone. "Será que sou ontem?", pensou também. E o Coisa Ruim ou Santo Deus queimando-lhe em brasas finas por dentro. Não foi se aguentando, sofrendo em convulsão sã, debateu-se em pé. Botou um braço para fora, sacudiu ao vento e mediu com os olhos o que podia o esperar lá embaixo. Sentiu medo. Tentou mais uma vez achar a pasta. Desceu as escadas e percorreu o caminho de novo. Viu a menininha e o graveto, os carros, a noite chegando.
Eram 19h45 quando subiu pela última vez. Abrindo a porta num soco, foi à janela e fez o que deveria ser feito:

Fechando os olhos fortemente, estufou o peito, deixou metade do corpo para fora do apartamento, angulou a cabeça rumo à Lua e, num vomitar, gritou. Gritou como se jamais no mundo houvesse tido grito.
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